segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Grand Theft Auto: Muito Barulho Por Pouco

Desde que foi lançado, em 1997, a franquia Grand Theft Auto despertou variadas reações em públicos do mundo todo. Alguns adoram o alto nível de violência, justificando-o como uma “válvula de escape” para as frustrações do cotidiano – e jogam no modo “cachorro louco”, atropelando todos e metendo bala nos policiais – enquanto outros são ferozes críticos do game, que faria apologia ao crime, tendo até já inspirado alguns sem-noção (confessos) por aí a tentar repetir as aventuras nada corretas dos personagens, roubando carros, entrando em gangues e participando de pancadarias.

GTA III

Evoluindo depressa depois das primeiras duas versões, que em 2D com visão superior (chamada de 2.5D), já haviam arrebatado muitos gamers com as perseguições, atropelamentos e tiroteios, GTA chegou ao mundo tridimensional em 2001. O barulho foi ainda maior, E GTA III tornou-se um marco na indústria de games, tanto pelas vendas, quanto pela jogabilidade, em estilo mundo aberto (sandbox), em que o jogador pode seguir a trama de maneira livre, e fazer praticamente o que quiser. E não podemos deixar de mencionar: também pela quantidade de críticos que surgiram, entre advogados, autoridades, religiosos e políticos.

Como “fazer o que quiser”, fica entendido: roubar, matar, atropelar, atirar na polícia, atirar em vias públicas, usar bombas, praticar assaltos, usar armas, fazer parte de gangues, transar com prostitutas, participar de rachas, derrubar helicópteros, e mais uma série de outras atividades “não muito recomendadas” na vida real.

Mas afinal, o que desperta tanto o interesse dos jogadores em GTA e nos seus opositores? Será mesmo a violência, ou a possibilidade de seguir um caminho não-linear, que torna a experiência de jogar mais próxima de uma simulação da vida? Será que, visto de perto, o jogo é tão realista assim, capaz de tornar pessoas comuns como você e eu em psicopatas homicidas que saem roubando carros e passando por cima de todo mundo?

Ser mau ou ser bom: a questão

Quem já jogou qualquer versão de GTA (só joguei as três primeiras) sabe que, mesmo tendo a possibilidade de terminar o jogo apenas se cometer vários atos ilegais (como matar membros de gangues rivais e assaltar carros-fortes), há possibilidade de realizar “missões” alternativas, como policial, bombeiro e motorista de ambulância ou táxi. As ações do jogador quando rouba o carro da polícia e aceita chamadas da central não são das mais lícitas – afinal, sempre se deve matar o suspeito, assim como a polícia fará com você se estiver em qualquer nível de procurado de duas estrelas pra cima – mas elas dão um toque de “legalidade” às atividades do jogador.



Mas quem realmente gosta destas missões? Não é difícil ver na internet, no YouTube, por exemplo, vídeos de gameplay onde os jogadores fazem questão de atropelar os pedestres, só para ouvir o barulho do esmagamento e ver as rodas cheias de sangue, mesmo que isso chame a atenção da polícia, o que não é muito bom para o prosseguimento do jogo. Talvez impelidos pela mesma fixação que faz milhares de pessoas irem ao cinema assistir Jason, Freddy ou outro deformado decapitando e desmembrando pessoas. Honestamente, esse tipo de entretenimento nunca fez meu tipo, por isso sempre tento ser o mais furtivo possível no game: nada de atropelamentos e mortes desnecessárias

Não porque ache que o jogador (eu, nós) será tomado por uma vontade incontrolável de fazer o mesmo no mundo real; a violência está presente na vida de todos, seja no cinema, tv, música. O videogame é só mais um braço do grande polvo-entretenimento. Por que tanta preocupação em barrar a violência nos games, quando crianças assistem filmes muito mais sangrentos que qualquer game já feito? E mesmo que assistam (ou joguem esses games), pessoais normais não tentarão bancar o Claude ou CJ na rua do seu bairro. As anormais? Elas sempre terão algum pretexto para ser o que são.

Mas voltando ao assunto abordado antes: atropelar pedestres, ou transar com as prostitutas e sem seguida matá-las em GTA pode ser útil – desde que a polícia não apareça – já que isso permitirá ao personagem tomar seus itens, como dinheiro e armas. Talvez em crianças bem pequenas, ainda com a mentalidade em formação, tal jogo possa ser nocivo, mas admitir que marmanjos com mais de 18 anos serão “hipnotizados” pelo game e compelidos a se comportar mal, já me parece uma grande balela. Afinal, o jogo tem muito nome, atacá-lo pode trazer grande destaque para um aspirante a político ou ocupante de qualquer cargo público. Precisamos de “defensores da moral e dos bons costumes que combatam esse tipo de malefício aos nossos ingênuos adolescentes que não sabem discernir realidade de ficção”.

GTA “do Bem” Faria Sucesso?

Um dos motivos do game ser tão combatido por gente grande, além do escândalo sensacionalista em cima do caso Hot Coffee (mini game erótico, muito do fraco, diga-se de passagem, dentro de GTA San Andreas) é pelo jogador ser sempre um bandido, usando armas contra as forças policiais e os civis. Essa marca da franquia me parece forte demais para ser alterada, sob risco de descaracterizar o game.

A Secretária de Estado, ex-Senadora e ex-primeira dama norte-americana, Hillary Clinton, ficou em verdadeiro furor quando do escândalo Hot Coffee, sendo “homenageada” em GTA IV na “Statue of Happiness”, um clone da Estátua da Liberdade que, sarcásticamente, segura um copo de café.

O advogado Jack Thompson, ativista anti-games violentos e sacanas, que gosta pouco de aparecer, já se envolveu em batalhas contra GTA, Mortal Kombat e Bully, e vive azucrinando a vida do presidente da Take-Two (que distribui GTA); como resultado, também foi lembrado no game: em uma das missões, é preciso matar um advogado, que ao se ver na mira da arma, diz “Armas não matam pessoas. Videogames sim”. Thompson garante que ele foi a inspiração do tal advogado (e cá entre nós, deve ser mesmo).

Mas o que aconteceria se fosse lançado ao menos um patch em que, em vez de ser o bandido, o jogador fosse o mocinho? Será que o sucesso seria similar? Games que tentam simular a vida, de forma caricata ou não, já mostraram seu potencial nos últimos anos, como The Sims, e os inúmeros clones de GTA com temáticas diversas como faroeste e estórias vampirescas.

Acredito que um clone de GTA visto pela ótica dos “mocinhos” talvez fosse bem sucedida. O espírito “Charles Bronson” se mostra presente a qualquer tempo, basta ver um crime de repercussão para que todos comecem a falar como “justiceiros”. Só não conseguiria ir longe se incorresse nos mesmo erros de outros clones, que tentaram seguir um caminho exageradamente realista – nas físicas e probalidades, matando o personagem em uma batida de carro ou com um tiro muito certeiro, por exemplo – ao contrário de GTA, em que um carro leva tiros, capota, desvira, bate com caminhões, e… a ação continua a não ser que o veículo esteja sem condição; ou em que o personagem leva vários tiros e continua correndo.

Pode ser exatamente nesse quesito – o fator “mentira” – que GTA acabe se sobressaindo sobre todos os demais. Embora dê ao gamer a possibilidade de agir conforme sua vontade, indo pra bem longe do que faria na vida real, todo aquele mundo é permeado por uma canastrice, em que seu “herói” pode levar um bom número de tiros, ser surrado, espancado pela polícia, preso, atropelado por um caminhão e no final, termina são e salvo na porta do hospital (ou da cadeia), pronto para recomeçar tudo. Pra não citar os saltos completamente impossíveis feitos com os veículos. Isso, de certa forma, me lembra o filme “True Lies”, em que as coisas mais inverossímeis acontecem, mas o público se diverte.

Assim, e concluindo, o que GTA (já que estive falando especificamente dele, mas se aplica aos outros games semelhantes sem generalizar – Manhunt, por exemplo, é só pra quem tem sérios problemas) tem de encantador, ao meu ver, não é a violência contra a sociedade, mas sim a exagerada variedade de acontecimentos surreais, fantasiados de vida real. E banir o jogo porque meia dúzia de retardados veem nele um espelho, é como banir as facas porque alguns acham que são armas e não utensílios de cozinha.

(Mas eu continuo esperando uma versão de GTA onde o herói não seja o bandido, será que vai acontecer?)